CUIABÀ



No dia 6 de maio de 1989, uma manhã muito fria, chegamos em Cuiabá, com as nossas três filhas: A mais velha com cinco anos, a segunda com três anos e a caçulinha com um ano de idade.

Começamos a pastorear a pequena igreja que ficava no Bairro do Porto na Rua Feliciano Galdino 122. Por alguns anos ficamos por lá e em 1994 nos mudamos para o Bairro do Tijucal. Durante alguns meses moramos no CPA 1 e ajudávamos as duas igrejas.

Eu sempre fui ativa, ajudando no trabalho com as crianças, ensinando em Escola Dominical, Escola Bíblica de Férias, classes bíblicas nas ruas e liderando as professoras do Ministério Infantil. Auxiliei as mulheres e promovi diversas atividades entre elas. Constantemente eu estava ao lado do meu esposo para visitar os lares, ministrar estudos bíblicos para os irmãos da Igreja Cristã Evangélica Reencontro de Cuiabá. Fiz muito discipulado, usando o material de células que nós implantamos, após a realização dos grupos familiares. Por muitos anos fui líder do Ministério de Oração que foi criado e idealizado por mim. Com toda paixão e fervor eu dirigia à Igreja muitas preleções sobre oração, interseção, quebrantamento e avivamento. Também escrevi vários artigos no Info, o jornal mensal na sessão “Convite à oração”.

Vinte e um anos se passaram neste pastorado. Vimos crianças nascendo e crescendo, acompanhamos namoros e celebramos casamentos e também infelizmente participamos de velórios de pessoas amadas.

As filhas cresceram e muita coisa mudou. Já não éramos mais tão jovens e devido a desgastes diversos o meu esposo teve que afastar-se da igreja para um merecido descanso. Passamos uma semana na Casa da Esperança em Mondaí, Santa Catarina, uma casa especial para repouso, com terapias adequadas dirigidas por uma missionária alemã que desenvolve este trabalho com muito amor e desprendimento. A querida Lilo é aquele tipo de pessoa que irradia a presença de Deus e nós nos sentimos bem, apenas pelo fato de estar perto dela. Fomos até Curitiba, depois São Paulo e finalmente Goiás. Quando retornamos para reassumir a nossa igreja tudo estava diferente, e impossibilitados de continuarmos, a deixamos.
NOSSO PRIMEIRO CAMPO
Formamo-nos no seminário e logo fomos morar em uma fazenda que se chama Boca da Mata no Estado de Goiás. Pastoreávamos a igreja da fazenda e a da cidade de Goianira. O fusquinha amarelo era o nosso meio de transporte que muito nos ajudava.
Na Boca da Mata era muito bom. Nossa casa e nosso quintal eram enormes. Não precisávamos comprar leite nem frutas e verduras, a não ser algumas variedades. O frango e a carne também quase não comprávamos. Tudo se adquiria com mais facilidade. As duas congregações eram pequenas e amigáveis. Eles nos amavam muito.

Eu fiz algumas Escolas Bíblicas de Férias nas quais fomos muito bem sucedidos, com a freqüência de muitas crianças. Constantemente acompanhava meu esposo nas visitas.

Em março de 1985 descobri que estava grávida da minha segunda filha. Nós a chamamos de Abigail que significa “FONTE DE PRAZER”. No dia 23 de outubro nossa linda filha nasceu e fazendo jus ao seu nome nos trouxe muita alegria e cada dia com a sua personalidade firme e a sua criatividade aguçante tem nos concedido prazer.

Depois de um ano e onze meses nos mudamos para Barra do Garça no Estado do Mato Grosso. Fomos começar uma igreja. Lá era tudo o contrário de Boca da Mata. A casa era minúscula e passamos muitas privações financeiras. Acima de tudo estava o consolo de Deus que nos fazia sermos contentes em toda e qualquer situação.

Em junho de 1987 fiz um exame no Laboratório Central de Análises e Pesquisas Clínicas e pela terceira vez confirmei que estava grávida da nossa terceira filha que nós tínhamos certeza que seria um menino, o André ou o Marcos. Na minha última semana de gestação eu li uma revista Lar Cristão que continha um artigo de uma escritora chamada Renira Cirelli. Então eu decidi que se tivéssemos uma menina o seu nome seria Renira. Aconteceu exatamente isso. No dia 1 de fevereiro na Clínica São Camilo nasceu a nossa terceira e última filha. Renira é sinônimo de amabilidade, simpatia, sorriso e ternura.

Agradeço a Deus pelas minhas três rosas. São elas que perfumam minha vida cada dia.
Um rapazinho de temperamento muito introvertido recebeu dos seus vizinhos Eliel e Moisés um convite especial para comparecer no culto da Igreja Cristã Evangélica localizada na Rua Dr. Antonio Catunda 392 na modesta cidade de Crateús. Devido a timidez do jovem Antonio Francisco, ele foi para um circo que estava instalado perto da igreja, tendo em vista também que não tinha ninguém na porta do templo para recebê-lo. Inquieto voltou rapidamente do circo desta vez a minha tia Ana Lúcia encontrava-se na entrada e deu uma calorosa e alegre recepção para o moço.

Ao final da mensagem bíblica, quando o meu avô Lourenço Linhares perguntou quem queria entregar a sua vida para o Senhor Jesus Cristo, Tutuca, como era conhecido por todos, não exitou e levantou-se do banco para tomar a decisão mais importante da sua vida e que a transformaria cabal e absolutamente.

No instante em que eu vi o Tutuca senti que ele seria o meu namorado, pois eu estava orando por isso. Relutei um pouco com essa idéia, mas um mês e vinte e dois dias depois estávamos namorando. Ele foi meu primeiro namorado e eu fui sua primeira namorado, Ele com dezesseis anos e eu faltando trinta e quatro dias para ficar com a mesma idade dele. No dia do meu décimo sexto aniversário ele presenteou-me com um cartão no qual estava escrito: “Se você está feliz porque hoje é seu aniversário, estou feliz duas vezes; pelo seu aniversário e porque lhe amo.”

Depois de um ano e três meses o nosso namoro terminou e eu comecei a namorar com um rapaz de outra igreja e cidade. Ficamos sete meses separados, mas como bons amigos e trabalhando juntos na igreja. Com o reatamento do nosso namoro, percebemos que tudo o que aconteceu foi para o nosso bem, pois alguns erros que estavam causando frieza no nosso relacionamento foram consertados.

Eu tinha dois grandes desejos: o primeiro era conhecer mais a Deus e servi-lo fielmente e o segundo era permanecer toda a minha vida com o meu amado Tutuca e constituir com ele uma família e ter um lar cheio de amor. No dia 5 de dezembro de 1981 oficializamos o nosso noivado na área da minha casa em um indelével sábado
MINHA FÈ
Meus pais me ensinaram lindos cânticos de louvor a Deus e contaram belas histórias da Bíblia. A minha avó que eu chamava de Mainha me instruiu na palavra de Deus de forma bárbara, contando histórias bíblicas, usando o flanelógrafo e figuras coloridas. Mainha tinha um dom especial para ensinar crianças. Meu avô, o Pai Linhares era pastor e a foi com ele que aceitei Jesus como meu Salvador e fui batizada. Minha tia Mirian ensinou-me inesquecíveis histórias, dentre elas a do mexicano Samuelito.

Aos doze anos comecei ajudar a missionária Esther nas Escolas Bíblicas de Férias. Ela ensinou-me a trabalhar com crianças e assim segui os passos da minha avó. Dona Esther, uma americana e solteira muito dedicada, trabalhando pelo Sertão do Ceará bem cedo acreditou em mim e deu-me a oportunidade que eu aproveitei, desenvolvi e aperfeiçoei e me foi útil por toda a minha vida.

Aos quinze anos senti o chamado de Deus para a obra missionária em um culto ao redor de uma fogueira no Acampamento Maranata em Fortaleza. Foi o pastor Percy Belah que me aconselhou, após a sua mensagem.

Os jovens da nossa igreja eram muito animados. Fui líder deles por diversas vezes. Nós visitávamos o presídio, os hospitais e sempre estávamos juntos ajudando uns aos outros. Apresentávamos peças de natal e outras datas comemorativas.

Algo que foi muito marcante na minha infância foi participar de um acampamento por ter memorizado trezentos versículos bíblicos. O acampamento foi no Sítio Maranata em Messejana na linda Fortaleza no Estado do meu querido e inesquecível Ceará.

Tive o privilégio de participar de muitas Escolas Bíblicas de Férias onde escutava lindas histórias missionárias, das quais a mais marcante foi a do Peregrino. Aprendi um cântico que até hoje eu lembro:
De Moisés ouvimos na cestinha só
E da paciência do piedoso Jó
Jonas na baleia para Deus voltou
Noé na grande arca pela fé entrou.
MINHA INFÂNCIA

O trem ia se distanciando da estação e a minha mãe inclinada no ombro do meu pai derramava lágrimas de saudade e tristeza pelo afastamento que nós estávamos tendo, pois eu estava indo com a minha tia Mirian para estudar na casa dos meus avós em Guaraciaba do norte, Região serrana e fria do Ceará. Era natural que eu não me adaptasse tão bem aos estudos e fosse reprovada, afinal de contas eu tinha apenas seis anos de idade. Apesar do carinho e apoio dos meus avós e tias, não consegui bom êxito estudantil.

Quando voltei de Guaraciaba, minha mãe estava grávida do meu segundo irmão, o Rosivaldo. Foi preparado um enxoval todo azul e muito bonito. Há sete anos não tínhamos bebê em casa. Todos esperavam com euforia. Rosivaldo foi o xodó do papai, por ser homem e por ter ficado tanto tempo sem ter filhos. Menininho esperto e traquino era ele! Toda a sua energia foi requisito importante para moldar o caráter determinado, valente e altruista do homem que ele é hoje.

Em Crateús eu estudava no período vespertino no Grupo Escolar Lourenço Filho que depois passou a ser chamado de Escola Estadual de primeiro grau Lourenço Filho. Eu ia para a escola com minha saia azul-marinho de pregas com uma pequena fita vermelha e fivela na cintura. A blusa era de tricoline branco, sapatos colegiais pretos e meias brancas.


Sofri muitas críticas e preconceitos dos colegas, pelo fato de eu ser evangélica. Eu nunca revidava e algumas vezes voltava para casa humilhada e chorando.

No segundo semestre do meu terceiro ano meu pai escreveu uma carta para a diretora da escola, pedindo a minha transferência para a Escola Estadual de primeiro grau Lions Clube que era mais perto da nossa casa. O quarto ano foi com a D. Síria que já tinha sido minha professora no primeiro ano. Reconheço que não entendia muito bem as matérias. No quinto ano eu desabrochei! Entendia tudo com facilidade e só tirava notas boas. Era o início da adolescência e tudo era novidade e descobertas. Duas professoras marcaram minha vida para sempre. A Machadinha que ensinava Português e Estudos Sociais e a Joaninha que ensinava Matemática e Ciências.

Meu irmão Rogério e eu brincávamos de casinha, fazer comidinha, dirigir cultos evangélicos, onde ele era o pastor e eu era a esposa do pastor; sem saber estávamos preanunciando algo que anos depois tornou-se realidade.

Nós preparávamos bolinhos de terra com água e a tardinha quando voltávamos da escolinha da tia Valdivia verificávamos se os bolos estavam prontos. Claro que tinham secado com o sol causticante e quentura demasiada do nosso saudoso Ceará.

Os banhos no riacho e açude eram uma festa de alegria. Aproveitávamos quando mamãe ia para lavar roupa com outras mulheres ou as vezes simplesmente para banhar. Junto com os nossos primos aprontávamos muita algazarra. Tudo isso era muito bom, mas tinhamos que aproveitar ao máximo, pois era só no tempo da chuva, porque depois que as chuvas acabavam, restavam somente as cacimbas de onde as famílias tiravam água para garantir a sobrevivência.

MINHA MÃE

Antuzinha Linhares Bonfim nasceu no dia 24 de outubro de 1942. Teve uma infância dura, sendo criança de pouca idade precisava ajudar a  mãe nos afazeres domésticos e cuidar dos irmãos que nasciam um bem perto do outro.

Minha mãe sempre foi muito dinâmica e esperta e por isso conseguiu a sua independência financeira bem cedo. Na juventude foi professora. Depois que casou começou a costurar e dedicou-se a tal atividade por muito tempo. Comprava tecidos e roupas na capital do Ceará e vendia para uma clientela fiel de mulheres que foram conquistadas pelo seu carisma ímpar e vivacidade de espírito e inteligência.Mais tarde ela montou a Lojinha do Ceará na cidade de Inhumas, Estado de Goiás.

Foi mamãe que insistiu muito com papai para que nos mudássemos para a cidade de Crateús para que conseguíssemos estudar, já que no lugar em que morávamos no pequeno vilarejo de São Gonçalo, os estudos não eram suficientes para a nossa formação acadêmica.

Mamãe é  visionária,empreendedora e pró-ativa. Ela é uma mulher de fibras fortes e inquebráveis que foram tecidas ao longo dos anos, através de muito labor, perseverança, coragem, força de vontade e persistência.

Hoje posso entender um pouquinho do sofrimento que ela sentiu quando eu saí de casa no dia 21 de fevereiro de 1982, após uma semana de casada, quando eu e meu esposo partimos do Ceará para estudar no SETECEB – SEMINÁRIO TEOLÒGICO CRISTÃO EVANGÉLICO DO BRASIL em Anápolis-GO. Uma parte da letra da música “No dia em que eu saí de casa” da composição de Joel Marques e cantada por Zezé de Camargo e Luciano leva-me a lembrar desse dia e algumas vezes eu choro quando escuto essa música, porque agora eu sou mãe e posso compreender bem melhor a dor que minha mãe sentiu e talvez sinta até hoje e de forma mais intensa em  ocasiões esporádicas.

No dia em que eu saí de casa
Minha mãe me disse:
Filho, vem cá!
Passou a mão em meus cabelos
Olhou em meus olhos
Começou falar
Por onde você for eu sigo
Com meu pensamento
Sempre onde estiver
Em minhas orações
Eu vou pedir a Deus
Que ilumine os passos seus...
Eu sei que ela nunca compreendeu
Os meus motivos de sair de lá...

                                          MEU PAI
                             
Raimundo Rosa Bonfim nasceu no dia 7 de fevereiro de 1928. Ele teve uma infância muito difícil, tendo que ajudar o pai nos serviços de agricultura. Aos 18 anos Raimundo calçou o seu primeiro par de sapatos e começou a ser alfabetizado. Em três meses ele já lia e escrevia corretamente, sabendo para si e para ensinar a outros.

Meu pai é o meu herói. Ele é um homem íntegro e paciente, manso e moderado. Muito do meu caráter foi formado pela conduta e exemplo de sua vida. Papai sempre trabalhou bastante para garantir o sustento da família e para realizar-se como homem honesto e obediente a Deus. Trabalhou como comerciante e taxista. Fez curso de técnico de rádios e consertou muitos, como também os vendeu demasiadamente. Já em idade avançada, depois da aposentadoria trabalhou como taxista. Hoje com seus bem vividos oitenta e três anos, ele aprecia bastante o computador e está sempre ativo fazendo suas apostilas e estudos bíblicos. É um poeta nato e faz rimas com muita facilidade.

A primeira história da Bíblia que meu pai leu para mim foi a de Pedro afundando em alto mar, quando deixou de olhar para Jesus e o primeiro cântico que ele ensinou-me foi:
Plena paz gozo eu
Plena paz gozo eu
E seguindo a meu Jesus
Vou andando para o céu

Recordo com saudade das noites em que meu pai reunia a família e amigos para contar estórias de trancoso, piadas, anedotas e adivinhações, além de outras brincadeiras muito divertidas, como a faquinha:
- Tá aqui a faquinha que da roça ela vem.
-Ela tem ponta?
-Ponta ela tem.
Todos teriam que falar normal, sorrindo, gargalhando, chorando, gemendo e gaguejando. Tinha a sementinha, não diga não, Dona Joana, melancia e muitas outras. Tudo isso jamais será deletado da minha memória.